Sobre mães, Proust e madeleines
   Alessandra  Vieira  │     27 de abril de 2015   │     13:55  │  7

Dizem que quem vai embora dessa vida não leva nada consigo. No entanto, a frase pode ter um significado menos literal, menos óbvio quando vista por outro ângulo. Há algum tempo, me dei conta de que, quando se foi, minha mãe levou com ela, além de muito amor, os olhos azuis mais lindos que já existiram e a receita do bolo de chocolate mais incrível. Ninguém lá em casa aprendeu a fazer o bolo e o curioso é que eu sempre quis que ela me ensinasse, mas achei que ainda teria muito tempo para isso.

Li certo dia que o pensador francês Marcel Proust – num período em que vivia recluso e doente num quarto em Paris – encontrou na madeleine (bolinho de limão em forma de concha) e numa xícara de chá, razões para seguir adiante. Essa experiência marcou a vida do escritor do clássico “Em busca do tempo perdido” e a emoção do momento foi registrada no primeiro dos sete volumes da obra intitulado “No caminho de Swann”: “Muitos anos fazia que, de Combray, tudo quanto não fosse o teatro e o drama do meu deitar não mais existia para mim, quando, por um dia inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por quê, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madalenas e que parecem moldados com aquele triste dia e a perspectiva de mais um dia tão sombrio como o primeiro, levei aos lábios uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço de madalena. Mas no mesmo instante em que aquele gole, de envolta com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferentes as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo. Cessava de me sentir medíocre, contingente, mortal”.

É assim, sob o aval de Proust, pensando na minha Maria, na sua receita inesquecível e na certeza de que aquilo que nos alimenta também nos remete a emoções, memórias e pertencimentos que dou início a este blog. Que ele seja um lugar muito especial dedicado principalmente à gastronomia alagoana. Sejam bem vindos sempre!

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COMENTÁRIOS
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  1. Erick Balbino

    Que texto incrível para o lançamento do blog. Amei tudo, desde o layout ao modo como vc conduziu o texto.

    Desejo todo sucesso do mundo pra vc, Alessandra, que é uma querida.

    Já ganhou um leitor regular.

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  2. Cláudia Gonzalez

    Tanta coisa gostosa por aqui….
    Muitos amigos me disseram que deu fome, que adoraram ver sobre as madeleines etc., etc.
    Eu digo o seguinte: Ler o que essa mulher escreve já é um deleite…e quando se trata de sabores dessa vida, então tudo fica uma gostosura.
    Que sacada foi essa de colocar essa figura feliz à frente desse blog!!!
    SUCESSO!!

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