Sarapatel da tia Carmen, segredos e tradição
   Alessandra  Vieira  │     12 de maio de 2015   │     8:00  │  7

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A cenoura dá um sabor agridoce ao sarapatel

“A colonização portuguesa foi, sobretudo, uma tentativa de reproduzir, no além-mar, os ambientes da terra-mãe – curral, quintal e horta. (…) Caso exemplar de sucesso, na entronização de novos hábitos culturais, foi o do porco. (…) Desse animal, tudo se aproveita: lombo, filé, carrê, costela, pernil, paleta, pá, pé, barriga (de onde se extrai a banha), joelho (usado para fazer um prato típico alemão, o eisbein). (…) De tripas, fígado e sangue, em Portugal, se faz o sarrabulho. Especialmente papas e arroz. É prato típico do Minho. E acabou sendo a origem do nosso sarapatel. Apesar disso, há os que continuam acreditando ter ele vindo de Goa, na Índia. Talvez esquecendo que a região foi possessão portuguesa, de 1510 a 1961; produzindo, tão longa dominação, uma cozinha que mistura hábitos de colonizadores e colonizados. Mas, para quem já provou dos pratos, não é boa aposta. Que o sarapatel de Goa, além de quase nunca usar sangue, leva temperos que não usamos – açafrão, cravo, gengibre e água de tamarindo. Enquanto o nosso, brasileiro, acabou tendo os cheiros e os gostos dos preparados em Portugal, nos últimos 500 anos.”

O trecho acima foi retirado do texto “De sarrabulho e sarapatel”, publicado no livro “História dos sabores pernambucanos”, da escritora (especializada em gastronomia) Maria Lecticia Cavalcanti. No livro, a autora apresenta os sabores, temperos, tipos de alimentos da cozinha pernambucana e o modo de prepará-los. Também acompanham mais de 200 receitas, de entradas a sobremesas. Influências que o índio, o português e o negro deixaram para nós no preparo desses alimentos. Uma dessas receitas é a do sarapatel.

Na minha família, sarapatel é um prato quase sagrado. Ele não pode faltar quando os Vieira se reúnem. A tradição começou com minha avó materna Dona Lili e hoje, a guardiã é minha tia Carmen, uma cozinheira de mão cheia. Tudo o que ela faz é uma delícia, mas o sarapatel… Em um domingo desses, pedi para que ela me contasse tudinho.

“A receita é para 1 kg de sarapatel. Prefiro comprar inteiro porque geralmente é vendido em pedaços grandes e eu gosto deles bem pequenininhos. Mesmo que a gente vá cortando os pedaços grandes dá muito mais trabalho, então é melhor compra-lo inteiro. Depois passo água fervente pra lavar e deixo escorrer bem. Pego três dentes de alho e machuco bastante com sal – e só depois vou acertando o sal –, uma colher de sopa de tempero (cominho e pimenta do reino), colorau, vinagre, extrato de tomate, tomate, pimentão, cebola, folha de louro e uma cenoura grande. É ela que dá um sabor agridoce. Todos dizem que é o segredo do meu sarapatel. Esse segredo aprendi com minha sogra, ela quem colocava essa cenoura. Outro segredo do sarapatel é que ele tem que ser gordinho. A gordura é a base do sabor do sarapatel. Então vai cozinhando aos poucos no fogo baixo, de vez em quando botando um pouquinho de água e experimentando pra ver se o sal e os temperos estão a gosto. Tem pessoas que gostam mais com pimenta do reino, eu boto muito pouco. Para acompanhar, farofa ou farinha, dependendo do gosto de cada um.”

Dica da blogueira: não esqueçer do limão, da pimenta, de uma cervejinha beeeeem gelada, de amor, união, pouca pressa e muitas gargalhadas!

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Farofa ou farinha: fica a gosto

 

 

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COMENTÁRIOS
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  1. Angela Malheiros Gomes de Melo

    Não gostava de sarapatel até comer o da Carmem que é delicioso, junto com essa família maravilhosa, melhor ainda!

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    1. Alessandra Vieira

      Olá Ademir, ela não tem restaurante. O sarapatel é feito para as reuniões de família. Estou muito feliz por você acompanhar meu blog! Seja sempre bem vindo!

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  2. Suzi Cabral

    Gente, dá água na boca só de ver as imagens, parabéns a autora Alessandra Vieira que está sendo tão generosa com seu público em revelar uma receita tão familiar. Sou suspeita em falar (rs) mas esse sarapatel é o melhor!

    Parabéns a família Vieira.

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  3. Andreza Melo

    Parabéns pela receita, aqui no meu trabalho já imprimimos várias vezes kkkk agora vou ficar na torcida para a Tia Carmen abrir um restaurante e se não abrir me convidar para as reuniões de família kkk

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