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Rapadura nossa de cada dia
   Alessandra  Vieira  │     23 de setembro de 2018   │     9:00  │  0

Costume, tradição, cultura e sabor. A história de Alagoas também pode ser contada através dos engenhos de açúcar e de um dos seus produtos mais doces: a rapadura. Segundo Lúcia Gaspar, bibliotecária da Fundação Joaquim Nabuco, a fabricação da rapadura teve início no século XVI, nas Canárias, ilhas espanholas do Oceano Atlântico. “O produto foi exportado para toda a América espanhola no século XVII, época de grande expansão açucareira”, disse.

De acordo com ela, a rapadura originou-se da raspagem das camadas (crostas) de açúcar que ficavam presas às paredes dos tachos utilizados para fabricação de açúcar. O mel resultante era aquecido e colocado em formas semelhante às de tijolos. “No Brasil, os engenhos de rapadura existem desde o século XVII, ou talvez antes. Há registro da fabricação de rapadura, em 1633, na região do Cariri, Ceará. Os engenhos de rapadura eram pequenos e rudimentares. Possuíam apenas a moenda, a fábrica, onde ficavam as fornalhas, e as plantações de cana que, normalmente, dividiam o espaço com outros tipos de cultura de subsistência”, afirma.

Atualmente, existem poucos engenhos desse tipo em atividade, um deles ainda pode ser encontrado em terras alagoanas, mais precisamente na zona rural do município de Água Branca. Lá, o Engenho de São Lourenço, comandado pelo carismático casal Maurício César Bezerra Brandão e Sylvia Medeiros, preserva a forma artesanal e rudimentar da fabricação da iguaria.

A história do local é contada na capa do cardápio do restaurante anexo ao engenho desde 2006. Conta assim: “O Engenho de São Lourenço foi criado no ano de 1920 pelo sr. Lourenço Bezerra de Mello, na Serra do Canto, em Água Branca-AL. Produzia rapadura e mel através da moagem de cana-de-açúcar por juntas de boi (também conhecidas como manjarra). Na década de 60, com a chegada da energia elétrica ao município, a sede do engenho foi transferida para a zona urbana da cidade, onde o mesmo passou a ser movido por eletricidade, funcionando no local até o ano de 1982. Em outubro de 2000, seu neto, Maurício César Bezerra Brandão, menino de engenho que cresceu ao lado do vô do Lenço (vó e vô do Lenço, era assim que seus netos chamavam carinhosamente seus avós), com novas instalações, resgatou a tradição da família e do município na produção de rapadura. Passou a produzir, além de rapadura com diversos sabores e tamanhos, mel, alfenim e açúcar mascavo, tudo de forma artesanal e orgânica, com tratos culturais da cana-de-açúcar da mesma maneira ensinados pelo vô do Lenço. Hoje, repaginado, passou por várias melhorias, entre elas uma nova identidade visual criada para o engenho e seus produtos. Em novembro de 2006, a sra. Sylvia Medeiros inaugurou, junto a este engenho, um tradicional restaurante temático, que comercializa comidas típicas nordestinas, bem como deliciosos sorvetes artesanais, com destaque para o de sabor rapadura, que pode ser servido tradicionalmente ou frito. Além da cana-de-açúcar, toda a produção agrícola do engenho também é feita de forma orgânica, inclusive a da horta utilizada no preparo de seus produtos.”

Pois bem, são exatamente sobre essas possibilidades proveniente da rapadura que quero falar. Porque essa diversidade de produtos pode ser a garantia da sobrevivência desse tipo de negócio produzido em um sistema de agricultura familiar orgânica. Bem o caso do Engenho de São Lourenço que, ao agregar outros produtos à rapadura aliou inovação à cultura, história e gastronomia tornando seu negócio muito mais atrativo e lucrativo.

TIJOLOS DE RAPADURA

Além do sabor original, no Engenho de São Lourenço a rapadura também é temperada nos sabores abacaxi; alecrim; amendoim; banana; castanha de caju; coco de leite; erva doce; cravo e canela; gergelim, cravo e canela e goiaba.

SORVETE DE RAPADURA

O sorvete de rapadura é a grande estrela do restaurante anexo ao engenho. O sabor é mesmo muito especial e a textura de uma cremosidade inesquecível. Além do tradicional, também pode ser servido na versão frita, uma experiência gastronômica. A massa que reveste o sorvete lembra o sabor de bolinhos de chuva.

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